Ergonomia em software

por Jorge Steffens

O desenvolvimento humano tem mudado drasticamente de direção nos últimos 10 a 15 anos, sem que a maioria de nós desse conta disso. Se eu lhes perguntasse o que mais marcou o mundo na virada para o século XXI, é provável que a maioria de vocês respondesse: o desenvolvimento rápido de novas tecnologias.

Sem discordar dessa afirmação, inquestionável, eu lhes diria que o fato mais notável na virada do século foi o acesso, quase que universal, às novas tecnologias. Hoje Boeing e Embraer, Apple e Microsoft, Toyota e GM, utilizam e disponibilizam aos seus mercados rigorosamente a mesma tecnologia.

Se é assim, então o que distingue uma empresa de outra num mesmo segmento de atuação? Eu afirmo a vocês que o que diferencia as empresas no século XXI é a ergonomia.

A ergonomia é a ciência do acesso às tecnologias oferecidas. O que diferencia um Toyota de um GM não é o câmbio tiptronic (mesmo fornecedor para as duas empresas), mas como cada uma delas facilita o uso desta tecnologia a seus clientes finais. A Boeing se diferencia da Airbus não pelo “fly by wire”, mas sim pela forma como essa tecnologia é tornada acessível aos pilotos.

A Apple revolucionou o mercado utilizando as mesmas tecnologias disponíveis, apresentadas de forma ergonomicamente atraente. E isso faz o sucesso não só dos aparelhos (iPod, MacBook Air, iPhone), mas também do próprio software do iTunes. Estão lá o design, a acessibilidade, a simplicidade para atrair milhões de “seguidores” para Steve Jobs.

Hoje, os softwares de Gestão de Negócios também são aproximadamente similares. Existem poucas diferenças entre as funcionalidades oferecidas por Datasul, SAP ou Oracle. O que torna estas empresas diferentes entre si é a ergonomia, ou seja, a forma como a funcionalidade pode ser oferecida, para ser cada vez mais simples e adequada para cada perfil de consumidor.

Em TI, isso pode ser levado ainda mais longe, na forma de consumerização, para utilizar um novo termo da era web 2.0: o software, por meio de uma plataforma flexível, utilizando as tecnologias de mercado, permite, de forma ergonomicamente simples, fácil e acessível, que o consumidor organize a interface de acordo com o seu jeito, a sua forma de trabalhar, as suas preferências.

Ergonomia para um software de Gestão de Negócios significa:

  • Interfaces com o consumidor (GUI’s) cada vez mais amigáveis e fáceis de personalizar.
  • Acesso às funcionalidades de forma seletiva e “filtrada”, não oferecendo a cada consumidor mais do que ele necessita.
  • Para que um software de Gestão de Negócios seja realmente ergonômico, ele deve respeitar duas regras:
    • A necessidade de melhorias contínuas na interface com o consumidor demanda que o desenvolvimento seja colaborativo;
    • O desenvolvimento colaborativo demanda, por conseqüência, a utilização de um software aberto (como Flex, Java, Dot Net, por exemplo) para o acesso democrático à biblioteca de componentes GUI a seus consumidores.

A definição da melhor ergonomia, por sua vez, depende de “um processo eficaz de avaliação dos requisitos do mercado”. Segundo a Wikipedia a melhor definição para requisitos pode ser:

“O que um sistema deve fazer e as circunstâncias sob as quais deve operar”.

Portanto, se quisermos projetar sistemas ergonomicamente aderentes às necessidades do mercado, devemos iniciar por entender os requisitos desse mercado. Infelizmente, os requisitos são, na maioria das vezes, definidos unilateralmente por quem produz o software, e não por quem vai usa-lo. Os requisitos para uso de um software (sua ergonomia e funcionalidade) deveriam ser definidos, colaborativamente, por quem produz o software, em consonância com quem o utiliza (o mercado).

Pensem a respeito. Voltarei ao tema nos próximos posts.

12 Comentários em “Ergonomia em software”

Rodrigo van Kampen disse em 19 Feb 2008 - 00:49

“Interfaces com o consumidor (GUI’s) cada vez mais amigáveis e fáceis de personalizar.” Acho que essa é a minha maior birra contra vários produtos da Microsoft. Não consigo personalizá-los, às vezes tudo o que quero é desativar um recurso que só me atrapalha (como por exemplo as “marcações inteligentes” do Office que nunca uso e que travam o aplicativo por dois segundos quando são encontradas). Outras vezes quero mudar uma tecla de atalho e não consigo.

No Outlook, que tenho que usar no trabalho, nem me fale! Toda vez que quero configurar algo, perco pelo menos 20 minutos de trabalho até achar onde tenho que mudar, e depois mais 10 tentando descobrir qual a opção certa. Por curiosidade: alguém já tentou organizar de verdade os contatos? Eu já desisti. E alguém sabe como desativar o atalho para enviar os e-mails apertando ctrl enter? Não dá via usuário. Descobri um meio pelo editor de registro, mas não funcionou para mim…

Fim das reclamações contra a Microsoft. Mas convenhamos que ergonomia está longe de ser um dos pontos fortes deles.

Um exemplo positivo agora: o Kindle, da Amazon, não trouxe nenhuma novidade (A Sony já havia lançado o seu reader que patinava há mais de um ano no mercado, e os e-books já rondam a internet há anos), mas fez com que comprar livros online e lê-los em uma tela fosse algo simples e fácil. Acredito que isso deve ser ergonomia.

Ótimo artigo, abraços!

Jorge Steffens disse em 21 Feb 2008 - 17:47

Rodrigo,

Vc resumiu tudo. É exatamente isso. Num mundo de plataformas de mercado e de reuso ilimitado – garantindo custos baixos – o que vai diferenciar mesmo um software, um serviço, um software como serviço, é a experiência do usuário. Como eu promovo da forma mais simples, acessível e, porque não dizer, prazerosa, esta interação de forma a surpreender o meu cliente e transformá-lo em um fiel seguidor ? Muito obrigado pela colaboração. Continue com suas brilhantes contribuições.

 
 
Julio Cunha disse em 19 Feb 2008 - 09:33

Jorge.
Para agregar um pouco, gostaria de fazer 2 comentários de ergonomia que vivencio atualmente, além de indicar uma autora que já contribuiu para algumas empresas de software melhorarem a usabilidade.

Na minha atual empresa, que é uma start-up e tem todas as dificuldades inerentes a este estágio de desenvolvimento, virei cliente de 2 empresas citadas por você: Apple e Google.

É impressionante o nível de serviço oferecido por elas.
Os computadores Apple simplesmente não travam e o sistema operacional, bem como a maior parte dos softwares, prescinde de qualquer treinamento de usuário final (realizo esta experiência com todos os funcionários, é incrível como o tempo de aprendizagem dos sistemas é pequeno).

Já o Google apps (serviço que pequenas empresas contratam do Google para e-mail, calendário, gestão de documentos e colaboração on-line) tem funcionalidades e capacidades que minha empresa não teria condições de suportar com recursos internos. Aliás, algumas capacidades do Google não existem em soluções corporativas ainda….

Na minha opinião, o sucesso destes sistemas não vem só do conhecimento de design e usabilidade, mas principalmente de como tornar estas obras, negócios viáveis.

No caso do Google Apps, que é cobrado, sei que o valor que minha empresa paga para ter acesso a estes recursos é apenas simbólico, pois uso uma infra-estrutura que já está paga por anunciantes e a taxa paga pela minha empresa me traz o benefício de optar por ver ou não anúncios enquanto utilizo o sistema.
Por incrível que pareça, a maioria de nós não desabilita os anúncios.
Ou seja, eles ganham 2 vezes.

Já a Apple consegue vender seus computadores a preços competitivos porque abriu mão de uma arquitetura proprietária e passou a vender computadores com plataforma Intel (o que remete ao seu post anterior), igual à dos PCs. Ou seja, hoje, mesmo no Brasil, ao comparar preços, um Mac está em pé de igualdade com um PC, com uma usabilidade,estabilidade e design tremendamente melhores.

E no caso de sistemas de gestão? O design na minha opinião, tem um único objetivo: aumentar o desempenho das pessoas.
Ou seja, se uma pessoa inteligente sentar-se à frente de um ERP, não deveria precisar perguntar nada, ser treinada em nada, pois o sistema seria intuitivo o bastante para o usuário desempenhar seu papel.

Em 1991, Gloria Gery lançou o conceito de EPSS (sistemas eletrônicos de suporte ao desempenho) que pode ser um caminho.
Com base nos conceitos de Gloria surgiram algumas mudanças, como os assistentes da Microsoft e da SAP, mas na minha opinião estas empresas exploraram muito pouco esta seara.

Com gente inteligente já é possível unir os pontos e produzir algo que seja simples e intuitivo. O desafio é tornar a obra viável do ponto de vista de negócio.

Jorge Steffens disse em 21 Feb 2008 - 17:48

Alô, Julio

Concordo que o Google não poderia ficar de fora desta discussão quando o assunto é ergonomia. É um fantástico exemplo de acessibilidade ao atender aos requisitos do que o usuário necessita de forma simples mas extremamente competente e eficaz.

Agradeço a colaboração e espero outras pertinentes contribuições suas. E lanço uma pergunta para o Julio e para quem estiver acessando: é possível para uma empresa de software compartilhar sua expertise (core) e ganhar com isso?

 
 

[...] Além do último post sobre o assunto, resolvi gravar um vídeo sobre o porquê da ergonomia ser um fator que diferencia as empresas em relação aos serviços e produtos que oferecem ao mercado, independentemente do setor. E, claro, o software de gestão não foge à regra. tags: ergonomia, software, vídeo [...]

 
glauco disse em 20 Feb 2008 - 09:25

Jorge,

Parabéns pela iniciativa!!!

“Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida.” Provérbio chinês. Lançando sua palavra através de um blog temos a oportunidade de receber retornos formidáveis do mercado e conseguir entender melhor o que a coletividade valoriza e espera de nós que estamos no mercado de TI.

Irei acompanhar e aprender com você e todos que tem postado excelentes comentários.

[ ]’s ;o)

Jorge Steffens disse em 21 Feb 2008 - 17:48

Muito obrigado, Glauco.

Em breve teremos novidades.

 
 
Repartir para multiplicar - Jukebox disse em 22 Feb 2008 - 17:13

[...] público. Pouco a pouco, a aderência do software aplicativo aos requerimentos do cliente se deslocou da funcionalidade para a ergonomia, como já abordei anteriormente. Por outro lado, a ergonomia de uso depende prioritariamente de requisitos que efetivamente atendam [...]

 
Jonas Gozdecki disse em 25 Feb 2008 - 12:48

Estamos saindo do tempo dos “commodities” e entrando na era das “experiences”. Tal fato é visto no sucesso do mundo dos cinemas, celulares com themes para cada perfil de usuário, TV Digital com mais ênfase em Alta resolução do que na interatividade…
Empresas com visão de futuro começam a investir em design e ergonomia porque depois que as funcionalidades básicas de um produto estão desenvolvidas, é necessário torná-las acessíveis para que o usuário utilize toda a tecnologia disponível, e atrativas para que o produto seduza mais e proporcione experiências boas para o usuário.

Sem dúvida o processo ergonômico depende dos requisitos, uma interface bonita, fácil de usar e intuitiva é vital para que um software seja inicialmente bem recebido pelo usuário. Mas o conceito “bonito” não é o mesmo para todos aí entra a arte e criatividade :)

Se o cliente disser “Wow!” na tela de login, você já estará mais próximo de conquistá-lo sem dizer uma palavra.

Jorge Steffens disse em 14 Mar 2008 - 14:15

Olá, Jonas!

Agradeço pelo comentário que, espero, se repita muitas vezes! É importante a participação de pessoas com a sua experiência nestes fóruns de discussão.

Abraço

 
 

[...] prospects e o próprio mercado. Dois temas devem nortear o blog, segundo a matéria da B2B: ergonomia e colaboração. A Datasul já apostava internamente nos blogs como ferramenta colaborativa e [...]

 
Microsoft que ser cool | Peixe Fresco disse em 10 Jun 2008 - 16:48

[...] desenvolvimento voltado para o usuário, ou ergonomia, discussão muito interessante levantada pelo blog do Jorge Steffens, CEO da Datasul. É basicamente no que a Apple e o Google levam vantagem: produtos de qualidade e [...]

 
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