Repartir para multiplicar

por Jorge Steffens

O Século XXI vem quebrando várias barreiras e tabus, dentre os quais talvez o mais importante esteja ligado ao compartilhamento de informações. Hoje, por meio da web, podemos achar desde uma receita de bolo até como entender o funcionamento de um míssil. Apesar da obviedade, muitas empresas ainda acreditam que trancar segredos de negócios a “sete chaves” é o diferencial competitivo para seus negócios. Essas empresas pararam no Século XX e vão pagar um preço por isso. Em minha opinião, os segredos críticos para o negócio são aqueles relacionados à forma como transformamos produtos em serviços, para atender às necessidades latentes de nossos clientes.

No mundo das software houses são poucos os segredos relacionados com a funcionalidade oferecida. Há vinte anos, o algoritmo do MRP (Material Requirements Planning) era o “pulo do gato” dos sistemas ERP. Atualmente, a lógica do MRP é de domínio público. Pouco a pouco, a aderência do software aplicativo aos requerimentos do cliente se deslocou da funcionalidade para a ergonomia, como já abordei anteriormente. Por outro lado, a ergonomia de uso depende prioritariamente de requisitos que efetivamente atendam às prioridades do mercado e nem sempre o developer tem a necessária sensibilidade para interpretar essas prioridades, até porque elas mudam constantemente.

Por todas essas razões, acho que as software houses deveriam se reunir em comunidades de desenvolvimento colaborativo, com foco na melhoria da ergonomia, a partir de um melhor entendimento dos requisitos do mercado. Imaginemos que nosso produto seja o painel de um automóvel, cuja ergonomia queremos melhorar. O designer pode imaginar que o requisito mais importante é a visibilidade das informações no painel. O usuário, por sua vez, pode priorizar a simplicidade (só quer ler as informações críticas – tipo: falta óleo no motor, a pastilha de freios está gasta). O desconhecimento dos requisitos do usuário leva o fabricante a gastar com melhorias que não serão valorizadas pelo mercado (ou que não são as mais prioritárias). A questão que eu coloco é: como coletar, interpretar e priorizar os requisitos do mercado?

Minha sugestão: lançarmos juntos a SoftCom, uma Comunidade para o Desenvolvimento Colaborativo de Software. Essa entidade teria como foco a análise de requisitos para a melhoria da ergonomia de uso de determinados componentes de software. Quais componentes? Aqueles mais relacionados à Ergonomia de uso do software.

Nossa comunidade deve seguir as etiquetas e protocolos desenvolvidos pelo Open Source:

Numa referência ao livro The Cathedral and the Bazaar (*), estamos saindo da nossa catedral em direção a um bazar. Devemos acima de tudo perceber que nossos comportamentos e ações serão analisados e controlados por uma multidão e que nosso modus operandi deverá se adequar à realidade do bazar, para não sermos banidos deste.

As comunidades para o desenvolvimento colaborativo de software podem oferecer inúmeras vantagens:

  • Criação de uma rede de confiança;
  • Produção de softwares melhores e mais aderentes às necessidades do mercado;
  • Melhoria no relacionamento com bases de clientes.

Tudo isso será possível por meio de:

  • Extensão dos talentos técnicos disponíveis em nas empresas;
  • Redução dos custos de desenvolvimento;
  • Mudança na forma de desenvolver software.

Num próximo post, abordarei as questões relativas às metas da comunidade. Feedbacks são muito bem vindos.

*[RAY 99] The Cathedral and the Bazaar: Musings on Linux and Open Source by an accidental revolutionary;Eric S. Raymond – disponível on-line no Google Books

3 Comentários em “Repartir para multiplicar”

Rodrigo van Kampen disse em 23 Feb 2008 - 13:41

Li um artigo recentemente do Kevin Kelly, editor da Wired, chamado “A economia interconectada” num livro de coletânea de artigos da HSM Management, que ele diz o seguinte:

Eu tenho uma maçã, e você tem uma maçã. Se nós trocarmos, cada um de nós continuaremos a ter uma maçã cada um. Agora, se eu tenho uma idéia, e você tem uma idéia, se nós trocarmos nossas idéias, cada um de nós teremos duas idéias.

É por aí. Quanto compartilhamos idéias e informações, todos têm a ganhar!

 

[...] em meu último post apresentei alguns conceitos sobre comunidades colaborativas para desenvolvimento de software. Neste [...]

 
Clovis disse em 19 Mar 2008 - 15:30

Criar conteúdo colaborativo é uma das grandes metas deste secúlo. Quem não aderir ao “movimento” possívelmente estará parado no tempo.

O exemplo utilizado pelo rodrigo da maça e da idéia reflete bem a minha opnião.

Idéia apoiada.
:)

 
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